segunda-feira, 16 de julho de 2012

Cousas que nom som o que parecem (4): de santidades enganosas

Aproveitando as férias do verao, as minhas viagens a Santiago intensificam-se, e o dispor de mais tempo de lazer permite-me investigar caminhos e rotas alternativas às habituais. Sem dúvida, umha das conseqüências mais positivas disto é descobrir toponímia nova na sinaléctica das estradas, como é o caso deste nome de lugar que hoje gostava de partilhar com vós: Sanmil. É umha entidade de povoaçom da freguesia de Rodeiro (Oça dos Rios), que conta com homónimos nos concelhos lugueses de Sober e Palas de Rei.


Bem conhecido é o gosto da religiosidade popular por criar santos e santas que nom figuram nos repertórios eclesiásticos, tal e como era o caso de aquele "Sam Pedro Novo" limego que protagonizava umha das histórias d'Os escuros soños de Clío de Carlos Casares.
Outras vezes, os santos de que falamos som reais e gozam de todo quanto reconhecimento oficial puderem desejar, mas acontece que os caminhos da evoluçom fonética e da etimologia popular som inescrutáveis, e nom é raro que o nome do santo ou santa em questom fiquem obscurecidos, pouco menos que irreconhecíveis após passarem por séculos de transformaçons. Nem fará falta evocar o bem conhecido caso dos nossos Seoane e Seivane, soluçons patrimoniais que podemos confrontar com o mais comum Sam Joám, ou outros exemplos se calhar menos divulgados embora nom menos interessantes, como Santa Sia/Santa Cilha (< SANCTA CAECILIA), Sanamede (< SANCTU MAMETI), Sancovade (< SANCTI CUCUFATI) e tantos outros. E, para além disso, a intervençom sempre deliciosa e fascinante da imaginaçom popular, que faz com que Sam Trocado, no concelho de Alhariz, se transforme num paveiro Santo Quatro, por exemplo.
Bom, e em qual destas categorias teríamos entom de incluir este Sanmil? Pois, como já teríais deduzido a estas alturas do artigo... em nengumha delas. Porque em Sanmil, realmente, bem pouca santidade vamos topar.
Na realidade, Sanmil nom é outra cousa que um cognado do mais habitual (polo menos em termos quantitativos) Samil ou Saamil. Trata-se de umha série toponímica bem conhecida e estudada, procedente do antropónimo bitemático germánico SALAMIRUS, através da correspondente forma do genitivo, facto que explica a terminaçom comum a todas estas variantes. De termos em conta a sistemática queda do -L- intervocálico, própria e caraterística do galego-português, o resultado lógico seria Saamil ou, com posterior reduçom do hiato [aa], Samil. Por esse motivo, a soluçom Sanmil deve ser analisada pola via da excepcionalidade: ou bem se produziu a interferência do lexema santo por meio da sua variante apocopada sam (o qual seria perfeitamente verosímil, em nossa opiniom: lembremos casos como o do topónimo Sambade, que aparece registado em documentos medievais como Santbade) ou bem ensaiamos umha evoluçom alternativa na qual, em época anterior a que se começasse a verificar a leniçom e síncopa do -L- intervocálico, já se teria produzido o apagamento da vogal pretónica [a] (quer dizer, SALAMIRI > *Salamir > *Sal'mil), o qual -por certo- lhe conferiria à variante Sanmil umha antigüidade relativa maior à dos seus curmaos dantes citados. 
A passagem da forma intermédia *Salmil para a atual Sanmil poderia se justificar por umha dissimilaçom consonántica, do mesmo jeito que costuma aceitar-se para outros topónimos como Xanceda (< *Sal'ceda < SALICETA). Ao desconhecermos registos documentais para o topónimo, carecemos de qualquer apoio para nos decantarmos por umha destas duas opçons. Mas a origem germánica e antroponímica (face à presumível génese haxionímica que nos parecia sugerir a priori a forma hodierna do topónima) semelha induvidosa. 


3 comentários:

  1. São Trocado lembra-me outro interessante topónimo: Santradão, que tenho visto alguma vez escrito algures como Santradán e Santadrán, e que no nomenclátor da Junta aparece como Santo Adrán, fgª do concelho de Vilaboa.

    Quanto ao tema de Sanmil, Eu também considero muito provável o passo Salamiri > Sal'mil > Sanmil. Enfim, parabéns polo artigo.

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  2. Obrigado Óscar! Interessante o caso de Santradám. De facto, este "Sanmil" de que falo aparece registado no nomenclátor da Junta da Galiza como "Samil", embora na sinaléctica e no falar local se verifique a variante "Sanmil". Lembro também agora o caso de "Santo Amédio" (variante segundo creio de "Mamede") reinterpretado polos falantes como "Santo-no-Médio".
    Saúdos!

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  3. Olà, onde eu moro, em Soandres na Laracha também hà o topónimo Sanmir ( aghora normativizado) em Samir.
    Hà outros como Boimir, villamir, estramil....
    Um saùdo.

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